Coletivo Ciganagens repudia realização de mesa da Associação Brasileira de Antropologia

NOTA DE REPÚDIO


O Coletivo @ciganagens repudia a realização e a composição da mesa “Terriotorialidades Ciganas no Brasil”, promovida em formato Webinário, na última quarta-feira (07), pela Comissão de Direitos Humanos, da Associação Brasileira de Antropologia – ABA.


Não compactuamos com atitudes anticiganistas e excludentes, quando temos no Brasil muitas ciganas/os capacitados, inclusive intelectualmente (exigência esta que consideramos muitas vezes injustas e incoerentes), para debatermos as nossas próprias vivências e experiências, já que nenhum dos/as participantes vive e/ou viveram à itinerância e nomadismo como prática de suas vidas, e às intensas lutas pelo direito aos territórios e terras.


Não cabe mais sermos acionados apenas em pautas que dizem respeito às nossas dores, como o anticiganismo, pois não é novidade que continuamos a padecer desta desgraça social, sendo ainda alvos de violências, perseguições e exclusões. Mas temos muito mais a dizer sobre questões outras que nos atravessam!


Ademais, não é razoável uma mesa cujo tema “Terriotorialidades ciganas no Brasil, vejamos, "territorialidade", termo debatido por nomes como Milton Santos (que dispensa falsas dicotomias da multiculturalidade), que dispensa apresentações, uma oportunidade debate acerca de tão caro tema - na semana da "visibilidade" cigana da ABA - apenas com pessoas brancas, sem uma representação de quem vive ou viveu as intempéries da vida em movimento, é no mínimo, lamentável.


Surpreende que essa ação tenha partido exatamente da Comissão de Direitos Humanos, desta que é sem dúvida uma das Associações mais importantes do Brasil, com um legado histórico de serviços prestados em benefício de tantos grupos étnicos minoritários que compõem a diversidade e pluralidade do povo brasileiro. Se antes a justificativa para exclusão era a falta de interesse e/ou capacitação acadêmica etc do nosso povo para se fazerem vozes – verdadeiramente – escutadas, inquieta compreender os motivos de tal atitude, principalmente, sob a justificativa de quem haveriam “ciganos em outros temas e mesas”. Não basta estarmos em temas de mesas relacionadas ao “anticiganismo”, nós queremos, precisamos, podemos e devemos ser representados em todo e qualquer espaço de debate e fala, desde que este esteja verdadeiramente comprometido com as nossas lutas, e em tirar do papel tantos “resultados e conclusões” de pesquisas, que, principalmente pesquisadores da Antropologia vêm desenvolvendo nos últimos anos com e sobre nosso povo. É bem verdade que a “solução” dessas e tantas outras questões que nos assolam, perpassam a (re)escrita das nossas história pela vida das NOSSAS vozes.


Não é mais possível aceitarmos continuarmos a ser infantilizados, visto que essa estratégia colonial de sermos ditos pelos outros – não passa de uma forma de perpetuar o anticiganismo, que nos reduz, silencia e ignora. Fato é que a opressão e a exclusão social para conosco está nas atitudes hostis e veladas, e visam que permaneçamos nas margens da sociedade. Não mais aceitaremos.


Em tempos, diante do exposto, comunicamos o declínio de nosso membro Roy Rogeres Fernandes, que não mais participará do webinário “Racismo e/no Ensino superior: cotidiano, experiências e desafios sob a perspectiva discente” organizado pela CECT/ABA.


Ao longo de mais de um ano de trabalho e vigilância, o coletivo @ciganagens tem se pautado no comprometimento de não deixar passar atitudes como essas.


Foto : DAN - @ciganagens/@ateliecalo


NADA ACERCA DE NÓS, SEM NÓS!


Cordialmente,


Coletivo @ciganagens


08 de outubro, Primavera de 2021

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