ESTAMOS PRODUZINDO EM MEIO AO CAOS OU FUGINDO DA REALIDADE?

Essa semana decidi sair um pouco do eixo do que escrevo aqui no site por dois motivos: o primeiro porque estou sem nenhuma disposição para escrever nada há 10 dias, e o segundo porque só vejo notícias negativas em tudo que olho. O COVID ainda presente em todos os lugares, hospitais estão cheios, pessoas esqueceram que estamos numa pandemia, jornais que só falam em número de mortos e um governo federal que nada faz em relação à saúde, a falta de comida na mesa das pessoas e a possibilidade de garantia da sanidade mental nesse momento.



Não posso mentir, sinto que estamos num mundo pós apocalíptico do qual precisamos fingir normalidade. E a normalidade é cansativa, ofegante, duradoura, linear, e chata. Essa normalidade tem me feito ter preguiça de escrever. E olhe, que escrever é uma das coisas que eu mais gosto. Mas em meio ao caos, não está fácil fazer tudo tão normal como era feito antes. Então, decidi escrever sobre isso, e sim, em primeira pessoa, para que você possa se identificar e também entender minha cabecinha nesse momento.

Eu sou Ícaro, um jovem de 23 anos, negro, gay, sem herança e que precisa trabalhar para conseguir manter os estudos. Então, sim, minha vida requer uma produção constante porque do contrário, as coisas saem do seu eixo. Atualmente, faço graduação em direito e mestrado no EISU de forma concomitante, assim como trabalho numa startup de pesquisa jurídica, atuo voluntariamente em instituições sociais, faço parte de movimentos sociais, e organizo esse Portal sobre educação e justiça. Consigo lidar com tudo isso e fazer o meu melhor em todos os meus fragmentos.

Imagino que não estou só. Dando um pequeno scroll nas redes sociais, consigo captar uma série de jovens como eu que fazem milhões de coisas. Além disso, percebo que nessa pandemia está sendo alarmante o número de cursos, reuniões, atualizações, demandas, que estão aparecendo para várias pessoas como uma espécie de fuga da realidade. Nessa perspectiva, me questiono: Será que não estamos nos lotando de afazeres para não conseguir ter um tempo para viver porque achamos que a vida tem um prazo curto diante de todo esse cenário de caos?



A minha resposta seria um talvez. Vejo que o cenário intensificou a necessidade de muitos se encherem de afazeres por conta da escassez. Na crise alimentar, muitos estão precisando trabalhar mais do que trabalhavam para conseguir se alimentar bem; outros, estão precisando correr para se formar e poder "fazer seus corres" profissionais; também, tem aqueles que estão investindo em meios digitais e por isso precisam de atualização. 


O cenário constrói dificuldades para serem superadas, o problema é que essa superação é dolorosa, e seria desnecessária se não fossem as dificuldades. E aí, você pode me perguntar: E isso tem relação com educação? Eu te direi que TOTAL. A forma como se aprende e como se ensina também deve estar relacionada ao cenário, a conjuntura, as relações histórico-sociais e ao contexto. Partindo pela ideia de Paulo Freire, a materialidade histórica deve ser compreendida no ato de educar.

Infelizmente, o que vemos sendo propagado é uma educação bancária, repetitiva, sem contexto, e autoritária, adaptada para os meios digitais. Ou seja, no que tange a educação, dificuldades de outros tempos não foram superadas, mas aprofundadas. E isso, impacta por exemplo, na quantidade de atividades avaliativas que os estudantes estão precisando realizar nessa pandemia a distância. O resultado são várias páginas produzidas, sem resultado prático e sem engajamento, enquanto fugimos da realidade acreditando que tudo está super, mega, hiper, normal.


Ícaro Jorge - Bacharel Interdisciplinar em Humanidades, Graduando em direito e Mestrando em Estudos Interdisciplinar sobre Universidade, ambos pela UFBA, Editor do Portal Educação e Justiça.

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