• Nelson Lima

O que é justiça cognitiva e qual sua importância na luta decolonial?

“A utopia do interconhecimento é aprender outros conhecimentos sem esquecer os próprios” (Boaventura de Souza Santos)




Fui tomado de imensa felicidade quando fui convidado para participar como colaborador do portal, ao mesmo tempo em que fiquei com um frio na espinha com tamanha responsabilidade em escrever para vocês. É nessa mistura de friozinho e intrepidez, que convido vocês a andarem comigo pelos caminhos da decolonialidade nos próximos meses. Iremos juntes tecer o fio da palavra, tentando construir sentido à palavra escrita a partir da minha escrevivência (toda reverência a Conceição Evaristo) e do diálogo que teremos com intelectuais de uma episteme insubmissa. Também peço licença a vocês, pois sempre que possível irei alargar as regras da gramática normativa, quase que por uma necessidade poética e estética.


Dito isso, voltemos ao tema de nosso primeiro texto juntes…


Acadêmicos ou não, algumas palavras nos últimos anos ganham cada vez mais atenção no nosso cotidiano, algumas delas são: colonialismo, colonialidade, epistemologia, decolonialidade, justiça cognitiva, epistemologias do sul, racismo estrutural. E é sobre essas e outras palavras que iremos tratar de conceituar neste espaço, dar sentido a elas, em seus aspectos políticos e científicos. Antes de conceituar o que vem a ser justiça cognitiva, precisamos situá-la em seu contexto político e epistêmico.


A ciência moderna passa por uma crise paradigmática, se antes ela nos guiaria a completa luz, afastando o ser humano moderno do obscurantismo da idade das trevas, hoje encontra-se imersa em crise. Com berço na europa, ela já não responde aos dilemas e complexidade da contemporaneidade. Se antes acreditava-se na universalidade do ser humano moderno, que nasceu junto com a ciência, detentor de uma razão nos moldes do paradigma cartesiano, de dualismo entre corpo e alma, hoje nos encontramos perdidos diante de um mundo em constante ebulição. As certezas e verdades do século XVIII e XIX já não respondem às imprevisões e caos da humanidade. Se antes tínhamos certeza de nossa superioridade e domínio sobre a natureza, hoje ela responde aos abusos e ganância da modernidade.


O ser humano não é mais… melhor, nunca foi aquele pensado como universal e medido com base no homem-branco-europeu na sua construção da modernidade. Nós somos plurais e carregamos nossa diversidade nos traços físicos, culturais e psico-sociais. Essa ciência fragmentada, excludente e reducionista, perde sua hegemonia na condução da humanidade a um projeto de progresso.


A especialização científica em pequenas áreas do conhecimento, que por sua vez, proporcionou avanço científico e tecnológico, fez uma fábrica de especialistas em serem especialistas. Os fenômenos foram reduzidos em pequenas parcelas de um todo. Como nos lembra Morin, enquanto há a fragmentação e inadequação do conhecimento, os problemas estão cada vez mais polidisciplinares, transversais, transnacionais e planetários. A hiperespecialização nos impossibilita de ver o fenômeno de modo global, muitas vezes tirado do seu contexto. Na verdade, os componentes que constituem um todo são inseparáveis, sendo interdependentes.


A ciência também elegeu um ser genérico como “ente” epistêmico, na medida em que, construiu sua verdade científica pensando em determinados corpos e subjetividades. Conforme o pensador e escritor Ailton Krenak, o ocidente reivindicou só para si a ideia da ciência, ainda que esta sempre existiu, desde que os primeiros seres humanos começaram a ter consciência de sua existência. A busca pelo conhecimento esteve presente na evolução humana, “assim como a escuridão que devemos atravessar”, nas palavras de Krenak. Com a chegada da modernidade, as ideias de ciência e de conhecimento foram colocadas em “lugares secretos”, tornando-se restrita nas mãos de poucos. Ainda para o ambientalista, “na virada do tempo, esse conhecimento passou a ser tratado quase como exclusividade dos cientistas. Um corpo de saberes e de pessoas selecionados tomou para si a voz da ciência e fez o trabalho de nos trazer a esse lugar que nós chamamos de modernidade”.


E o que é justiça cognitiva afinal? Para o professor Boaventura de Sousa Santos, o mundo está dividido a partir da lógica colonial de uma linha abissal, na qual essa linha separa e classifica os seres humanos sob a perspectiva do colonizador europeu. Essa linha radical divide a realidade social em dois universos distintos, sendo “este lado da linha” e o “outro lado da linha”. O “outro lado da linha” é considerado uma não existência, na medida em que são marginalizados, desde sua cultura, organização social, e até sua produção de conhecimento.


A justiça cognitiva é então a reivindicação política e epistemológica dos povos colonizados, sendo que a resistência política deve ter como pressuposto a resistência epistemológica. Deste modo, é preciso reconstruir as bases do pensamento, um pensamento pós-abissal, nas palavras de Boaventura. A justiça cognitiva reconhece a diversidade epistemológica e cultural do mundo, propõe valorizar os saberes e cosmovisões subalternizados pela colonialidade. E a ciência? O que a justiça cognitiva propõe não é o fim da ciência como produtora e difusora do conhecimento, mas uma perspectiva parecida com esse resgate das contribuições culturais diversas para ciência, como fora em sua gênese, explicado por Krenak.


Para maior aprofundamento

Coordenadoria de assuntos comunitários UFMG. Tempos Presentes - A negação da ciência com Ailton Krenak. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=9TOvKwQV-Ss&ab_channel=CACUFMG> Acessado em 10 de dezembro de 2020.


MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento;

tradução Eloá Jacobina. - 8a ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.


SANTOS, Boaventura de Sousa e MENESES, Maria Paula (orgs.) Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.





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