Resenha: Brasil, o Ornitorrinco!

O ornitorrinco é um ensaio do sociólogo Francisco de Oliveira, que recorreu ao estranho animal dotado de bico de pato, considerado ao mesmo tempo réptil, pássaro e mamífero, como metáfora do Brasil enquanto nação presa a um impasse evolutivo. No campo da sociologia, Chico utilizou o ornitorrinco para fazer uma analogia com a maneira excêntrica em que o capitalismo se desenvolveu na sociedade brasileira. Em vista disso, o autor denominou de forma metafórica, o Brasil como sendo um ornitorrinco.


Talvez não devêssemos chamar isso exatamente de "excêntrico", pois parece que estamos diante de algo que foge ao que ser o "normal" - mas, o que seria o desenvolvimento normal no capitalismo. Chico defende em outros textos a tese de que a desigualdade (maior ou menor no centro e na periferia ou nas periferias) é da natureza do sistema.


Francisco de Oliveira, foi um dos mais importantes sociólogos brasileiros, era professor titular aposentado de sociologia da Universidade de São Paulo, diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP e autor de vasta obra.


Era Doutor por notório saber pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (1992), participou do grupo inicial de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, com o qual rompeu em 2003.


Segundo o autor, na sociedade brasileira o mais arcaico convive com o mais moderno. Somos um país que guarda profundas aberrações, com a mais extrema miséria e pobreza dividindo a paisagem com condomínios de luxo e riqueza extrema, um grande contraste da sociedade brasileira. O Brasil é comparado com o ornitorrinco pelo sociólogo Francisco de Oliveira, visto que, o animal é um fenômeno estranho da natureza, um tipo indefinido entre mamífero e réptil. Um animal que não se definiu na evolução. Para Chico, o Brasil é o ornitorrinco. Uma nação onde o atraso tornou-se parte da sua estrutura e passou a ser mesmo parte de seu funcionamento como um todo.

O autor defende que a sociedade brasileira é cheia de disparidades, contradições, no fundo a grande massa sempre ficou a margem dos movimentos sociais ou foram usados como massa de manobra de interesses, sem grande compreensão ou senso de responsabilidade cidadã. Para ele a política no Brasil é irrelevante. Enquanto a sociedade por si só não tomar as frentes de comando de seus interesses, e lutar contra seus próprios mitos e defeitos, nada irá acontecer. Um dia, quando essa identificação de autopoder acontecer, os olhos da grande multidão acalada todo esse tempo, se voltarão para os grandes grupos econômicos, monetários e políticos, que sempre tomaram partilha de todo esse sistema, sem nunca olhar pelo lado humano e social do seu próprio povo. Mas infelizmente, concordo com Chico quando diz que não se sabe se esse dia vai chegar um dia.



Chico possui a meu ver uma analise perfeita na sua colocação, quando diz que quando a política se torna útil apenas a serviço da economia, nosso voto torna-se irrelevante. A democracia representativa já não servirá mais para nada. O grande desafio diante da inutilidade da política é essa, o que fazer diante de um Estado que só quer controlar os cidadãos a serviço do capitalismo e de um mercado que só deseja sua acumulação? A resposta é: não espere ampliação da democracia pela ação humana reivindicatória de justiça social imediata.

O clássico de Chico de Oliveira traz como argumento central a crítica ao dualismo defendido pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), que via no Brasil um setor avançado e um setor atrasado. Vem daí a então proposta de industrializar o Nordeste, eliminando-se o setor agrário exportador, que mantinha resquícios arcaicos (os latifúndios); industrializando a região, o país se nivelaria e superaria o atraso.

Chico de Oliveira contraria esta lógica, ao sustentar no ensaio que aquele atraso é integrado ao setor avançado, dando o exemplo do trabalho informal, em que o vendedor de latinhas torna-se fundamental para o processo de comercialização da Coca-Cola, por exemplo. Ele mostra que vão se criando outros trabalhadores precarizados, porém funcionais para o capitalismo brasileiro. É um capitalismo atrasado, que por não conseguir competir no mercado internacional, promove o rebaixamento da mão de obra para que possa se reproduzir.


REFERÊNCIA


Chico de Oliveira | O ornitorrinco: será isso um objeto de desejo? (00:44min).

Disponível em: https://youtu.be/nUFxcBYwKs8; TV Boitempo

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